Releases

Mais do que artesanato: quando o vidro que produzo no Paraná ganhou reconhecimento internacional

Por Désirée Sessegolo

Por muito tempo, o design produzido fora dos grandes centros internacionais foi tratado como algo periférico, restrito a circuitos locais ou a leituras folclóricas do fazer manual. Minha trajetória sempre partiu de uma convicção oposta: a de que a inovação mais consistente nasce do território, da relação profunda entre técnica, matéria-prima, cultura e intenção. A inclusão do meu trabalho no Homo Faber Guide tornou essa convicção visível em escala global.

Integrar uma plataforma sediada em Genebra, criada pela Michelangelo Foundation, que mapeia a excelência do artesanato contemporâneo a partir de critérios rigorosos — como domínio técnico, autenticidade, inovação e vínculo com o território — não é apenas um reconhecimento individual. É um sinal de que o Brasil, e em especial o estado do Paraná, tem voz própria no debate internacional sobre design, criação e economia criativa.

Foto: Marcel Rodrigues

Meu trabalho é inseparável do lugar onde ele acontece. Produzo vidro na Grande Reserva Mata Atlântica, um território de quase três milhões de hectares de Mata Atlântica, que passa pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, e onde a paisagem, os saberes locais e os desafios contemporâneos se cruzam de forma intensa.

Aqui, na Grande Reserva, o design não pode ser neutro. Ele precisa responder a questões reais, como o destino dos materiais, a geração de renda local e a responsabilidade com as áreas naturais que sustentam a vida e a cultura do lugar. Existe algo de sagrado na Mata Atlântica que se entrelaça às nossas raízes mais profundas. Recentemente, passei a integrar as ações da Grande Reserva e percebo como um grande privilégio, que aquece o coração, poder colocar minha essência e minhas melhores habilidades em um mosaico de ações a serviço da conservação desse patrimônio que é, em essência, parte de quem eu sou.

Na foto: Cardume Caiçara
Foto: Desirée Sessegolo

No Brasil, o vidro descartado ainda é um material com baixíssimos índices de reaproveitamento e altíssimo impacto ambiental quando mal destinado. Transformar esse resíduo em matéria-prima sempre foi uma escolha consciente. Não como discurso, mas como prática. Foi dessa decisão que nasceu a Fundição Guará, com atuação em Morretes e Matinhos, um projeto que une técnica vidreira, formação, geração de renda e valorização de comunidades caiçaras. Cada peça produzida carrega tempo, conhecimento e uma lógica de produção que se opõe ao descarte e à obsolescência.

Na foto: Garrafa transformada
Foto: Desirée Sessegolo

O reconhecimento internacional que agora recebo não celebra apenas o objeto final. Ele valoriza e reconhece todo um processo. Um modo de fazer que respeita o território, investe em excelência técnica e entende o design como ferramenta de transformação social, econômica e cultural. Estar no Homo Faber Guide ao lado de mestres vidreiros da Europa demonstra que é possível produzir com alto nível de sofisticação fora dos eixos tradicionais, mas sem abrir mão de identidade e coerência.

Foto: Marcel Rodrigues

Esse reconhecimento também reposiciona o litoral do Paraná no mapa do turismo cultural e de experiência. Abrir o ateliê, receber visitantes e permitir que pessoas participem do processo criativo não é um gesto acessório, mas parte do próprio trabalho. O visitante que molda o vidro, que compreende o tempo do material e sua relação com o território, passa a enxergar valor onde antes via apenas objeto.

Na foto: Peixes de vidro reciclado
Foto: Desirée Sessegolo

Mais do que um prêmio, esse momento representa uma virada simbólica. Ele mostra que o design brasileiro não precisa imitar modelos externos para ser relevante. Quando técnica, território e propósito caminham juntos, o trabalho fala por si — em qualquer idioma, em qualquer lugar do mundo.

O vidro que produzo no Paraná continua sendo o mesmo: feito à mão, com rigor técnico e responsabilidade. O que muda agora é o alcance da conversa. E ela está só começando!

Foto: Marcel Rodrigues

 

Désirée Sessegolo é artista visual e designer ítalo-brasileira nascida em Curitiba. Seu trabalho é reconhecido pelo Museu Alfredo Andersen, Casa João Turin e Museo del Vidrio de Bogotá, tendo participado de diversos salões de arte contemporânea em vários países, com destaque para o The Venice Glass Week na Itália em 2018, 2019, 2020, 2021, 2022, 2024, International Biennale of Glass na Bulgária em 2019, 2021 e 2023 e foi artista convidada para a Bienal Internacional do Vidro da Costa Rica em 2022. Foi idealizadora e realizadora do primeiro salão de arte em vidro do Brasil/2022 no MuMA em Curitiba e da 1ª Mostra Internacional de Arte em Vidro Brazil em Veneza/2024. Também foi idealizadora do Projeto Fundição Guará, voltado para a difusão da arte vidreira no país, capacitação de mão de obra e inclusão social. Atualmente, Désirée integra o portfólio de artistas da Homo Faber Guide.

Sobre a Grande Reserva Mata Atlântica:

A Grande Reserva Mata Atlântica é uma iniciativa que une diversos atores para desenvolver ações de turismo sustentável na maior área contínua de Mata Atlântica do mundo, com quase 3 milhões de hectares conservados entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Reconhecida nacional e internacionalmente, a iniciativa promove o ecoturismo responsável, integrando o patrimônio natural, cultural e histórico desse território único. Os participantes compartilham a convicção que a preservação e a conservação da natureza são fundamentais para o equilíbrio do planeta e para as gerações futuras, e que o turismo pode ser uma atividade econômica positiva desde que realizada de forma responsável e sustentável.

 

Categorias

Compartilhe

Veja também...